* Texto escrito pelo professor Marquinho e pela professora Roberta

No dia 09 de outubro, os alunos do 3º ano do ensino médio das cinco unidades do Colégio Anglo Leonardo da Vinci participaram de um aulão sobre o disco Sobrevivendo no Inferno, do grupo de rap “Racionais MCs”. A atividade especial foi elaborada pelos professores Marquinho (literatura), Dylan (literatura), Roberta (filosofia) e Ferraro (história).

O disco, lançado em 1997, virou livro e obra obrigatória em um dos principais vestibulares do país, o da UNICAMP. Vista com atenção, a obra se abre como uma aula de história, de política, de racismo e de luta por direitos humanos e sociais, no qual o cenário e os personagens das músicas são da periferia.

Cada canção é uma crônica do dia a dia de uma guerra civil não declarada, em que os jovens negros são exterminados tanto pela polícia como pela criminalidade, além de serem ameaçados pela pobreza e pelo preconceito reinantes. O rap dos Racionais se volta para os “abandonados” socialmente à margem do projeto de Brasil-nação que, desde a abolição da escravatura até hoje, nunca se completou. Uma realidade bem conhecida dos integrantes dos Racionais. Por isso, o discurso do grupo ganha legitimidade e os integrantes falam de igual para igual para os seus “manos”, e não para o consumo comercial da classe média.

O ódio destilado em cada letra é organizado e sublimado pelos Racionais em forma de poesia, com alcance estético, político e social. Como arte engajada, esse disco é um marco histórico ao mostrar para o resto da sociedade que a periferia não produz só “pobreza e violência”, mas também “cultura e potência intelectual”. Longe de maniqueísmos e simplificações preconceituosas, os Racionais MCs ajudaram a criar um lugar de fala para esses cidadãos periféricos e marginalizados, uma população silenciada que era vista pelo sensacionalismo dos programas policiais de TV como o inimigo interno a ser exterminado.

Ler e ouvir a trajetória dos Racionais MCs é ler e ouvir uma história de morte, de sobrevivência e de luta por cidadania.

Nos 23 anos que separam o lançamento do disco até hoje, a violência contra essas comunidades apenas aumentou. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, de cada 10 pessoas mortas pela polícia em 2019, 8 delas eram negros. O quadro é similar quando olhamos os números de policiais mortos, 65,1% eram negros. Sobrevivendo no Inferno é violência em forma de poesia, mas não tão violenta quanto a realidade em que vivemos.

Ouça o disco e leia o livro.

Depoimento dos Alunos:

“Achei muito legal a iniciativa dessas aulas especiais, somando tanto em repertório para os vestibulares quanto em valor cultural para os alunos. Eu pessoalmente não conhecia profundamente a obra do Racionais e ouvia muitos estereótipos em relação ao rap: “música de sexo e drogas”. Logo ouvindo as análises dos professores — muito bem preparados por sinal —, rompi com esse preconceito embutido e vi a riqueza e profundidade dessa obra. Tendo um contexto histórico muito rico e depois uma análise enriquecedora feita pelo professor Marquinho.”

Acho que essas aulas especiais só tem a somar em conteúdo para todos. Foi uma bela iniciativa.

— Felipe Yamamoto, unidade São Francisco —

“A análise feita sobre a obra dos Racionais foi incrível! Pois, além da parte técnica, proporcionou uma reflexão mais profunda sobre a realidade que as músicas trazem, da camada negra e periférica brasileira. Um assunto de extrema importância, tanto para o repertório pessoal de cada aluno, quanto para ampliar a nossa percepção crítica do mundo!”

— Mariana Giordani, unidade São Francisco —

“Participar de aulas assim é um incentivo inigualável ao aluno. Em momento raro, saímos dos autores europeus, que poucas vezes se relacionam às nossas demandas, e vemos os tópicos estudados em nossa realidade. São essas aulas que motivam a continuar sempre estudando!”

— Lucas Capelo, unidade Osasco —